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Identidade IFTO 2024 chama a atenção para os desafios de uma educação antirracista

AfroIdentidade

por Thâmara Filgueiras publicado: 18/10/2024 10h41 última modificação: 18/10/2024 10h41

"Eu tenho certeza que cada pessoa preta que está neste auditório já sofreu um, dois, três, quatro ou até mesmo muitos episódios de racismo na escola". Esta foi uma entre as muitas afirmações impactantes na mesa redonda que iniciou a programação do 6º AfroIdentidade, um dos eventos que completam a programação do Identidade IFTO.

O evento reuniu, no Auditório Central do Instituto Federal do Tocantins (IFTO) de Palmas, estudiosos e estudiosas, além de um público bastante heterogêneo, para debater a Lei 10.639/03, que incluiu nas diretrizes e bases da educação nacional a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Os batuques ritmados dos Tambores do Tocantins colocaram o público presente no clima das questões em debate, em uma apresentação que abriu a programação do evento.

Nas falas dos três integrantes da mesa - André Filgueira, cientista social, analista literário e docente da Universidade Federal do Pará (UFPA); Janaína Costa, integrante da Ajunta Preta, assistente social e conselheira estadual da Igualdade Social; e Suenam Simão, assistente social do IFTO e quilombola - a mesma ideia foi partilhada: da necessidade de se trabalhar a temática do racismo na escola com o objetivo de conscientizar as pessoas e contribuir para a formação de pensamento crítico acerca das disparidades sociais envolvendo questões raciais.

O próprio conceito de raça foi discutido na mesa e André Filgueira e Janaína Costa citaram estudos que abordam a invenção do conceito de raça para colocar à parte as pessoas pretas. Em sua fala, André destacou a importância de dar visibilidade aos corpos pretos e Janaína trouxe para o lado do ensino e citou como vários acontecimentos importantes do país são retratados de modo a invisibilizar a participação de pessoas negras.

"Sabem aquele famoso quadro que retrata Dom Pedro I com o braço erguido, em cima de um cavalo, rodeado de pessoas brancas que também estão com os braços erguidos, proclamando a independência do Brasil? Ele deixa de fora os braços de homens e mulheres pretas que também participaram desse processo, a exemplo de Maria Felipa e outras que lutaram por isso", comentou a assistente social.

Trazendo a discussão para um contexto mais próximo, Suenam falou um pouco da sua trajetória: de menino pobre que veio junto com a família do interior para uma cidade maior - Palmas - em busca de melhores condições e, entre os diversos desafios que enfrentou, um deles foi a morte do pai por latrocínio. "Eu fui alfabetizado aos 12 anos de idade. No ano de 1999, eu assisti à televisão pela primeira vez, porque onde eu morava não tinha", relatou o assistente social, destacando a falta de acesso a coisas, muitas vezes básicas para muitas pessoas, que a comunidade do quilombo onde vivia tinha.

Foi após a morte do pai, que apresentou a necessidade de que ele começasse a trabalhar que ele teve acesso a algo que lhe instigou a aprender. Contudo, não foi um acesso completamente facilitado. É que ele trabalhava entregando jornais e, antes de fazê-lo, lia as notícias que estavam na edição do dia e isso o despertou para o estudo que o possibilitou passar no concurso público e se tornar assistente social do IFTO. 

Referindo-se à Lei 10.639/03, ele destacou a importância de que, para uma educação antirracista, é preciso mais engajamento. "A implementação da Lei precisa ser de janeiro a janeiro e não apenas no dia 20 de novembro", enfatizou. As questões levantadas na mesa-redonda chamaram a atenção da estudante Inaí Rodrigues, do IFTO de Dianópolis. Ela considera o evento muito relevante para a reflexão das questões relacionadas com a afrodescendência.

"Quando a gente estudo História, ela mascara muito a participação do negro, por isso esse é um evento muito importante, pois ajuda a informar as pessoas", disse a estudante, que ressaltou a importância de divulgação das políticas públicas que visam reparar as desigualdades existentes. "Eu gostei muito da fala do servidor de Colinas, que contou um pouco da sua história, e como a leitura de jornais ajudou a informar sobre as políticas públicas que existem. No IFTO, o Neabi (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígena) dá mais visibilidade à pessoa negra e chama a atenção para os seus direitos", completou Inaí.

Oficinas e mostra de vídeos para dar visibilidade

Em sintonia com o que foi debatido durante a mesa redonda, o evento trouxe para o Campus Palmas uma série de atividades que tinham, entre os diversos objetivos, dar visibilidade à identidade negra. Música, poesia e a 3ª edição da Mostra de Curtas-metragens do AfroIdentidade foram algumas das atividades que colocaram em evidência um pouco do que compõe a cultura brasileira de matriz africana.

Minicurso e oficinas também focaram na identidade afro-brasileira por meio da escrita e da estética; todas elas colocando em foco o que André Filgueira constantemente destacou em sua fala: "corpos negros importam". Concordando com essa ideia, o estudante do IFTO de Araguaína Arthur Borges Sousa: "Esse evento é muito massa! Algo interessante é ver o modo como as pessoas expressam a identidade afro e mostram que isso é um modo de resistência e que é forte".